Sebrae comenta futuro das Centrais e Redes de Negócios no Brasil

“O foco é sempre em ganhos de competitividade, conquista e ampliação de mercados”.

Um dos principais fomentadores do modelo de negócio de centrais e redes de compras é o Sebrae. A entidade é responsável por reunir, em todo o país, empresários do mesmo segmento na busca de alternativas de crescimento.

É através do Sebrae que muitas Centrais e Redes de Negócios surgiram e ainda usa das soluções do órgão para se manterem atualizados e atuantes. Mas, o mercado tem evoluído e novas estratégias se fazem necessárias para a evolução deste modelo também.

Para saber qual a visão da entidade, o Blog Centrais de Negócios entrevistou o analista técnico, da Unidade de Acesso a Mercados do Sebrae, Enio Queijada de Souza.

AC: O associativismo tem ganho força como estratégia competitiva para vários segmentos. Qual o papel das centrais de negócios no desenvolvimento da economia?  

Enio: As Centrais de Negócios, também conhecidas na região Sul como Redes de Cooperação, buscam a inteligência coletiva, tipo de inteligência compartilhada que surge da colaboração de várias empresas tanto em suas homogeneidades como nas complementaridades e diversidades. Envolve processos como formação de consenso, capital social, tomada de decisão até chegar num patamar de planejamento estratégico conjunto. Os ganhos dessa atuação se revertem em economia nas compras conjuntas, vendas conjuntas, marketing coletivo, estruturação de marketplaces, melhoria das taxas junto às administradoras de cartão, bancos e credenciadoras de meios de pagamento, central de serviços compartilhados e muitas outras.

AC: Cada vez mais segmentos distintos aderem ao modelo. Há as redes tradicionais, se podemos chamar assim, como as de supermercados, lojas de móveis e eletros, mas há também novos nichos entrando neste modelo. Como o senhor avalia esse fortalecimento do modelo? Qualquer segmento pode montar uma rede de negócios?

Enio: Avaliamos de forma muito entusiástica. Sim, o modelo é de implantação em qualquer segmento ou ramo de atividades. No entanto tem como requisito a existência de confiança e capital social entre os participantes e é aí que a situação e o contexto nem sempre são favoráveis. O senso de cooperação entre pequenos negócios está abaixo do senso de competição, e isso ocorre não só por causa da concorrência, natural no mercado competitivo, mas também pela não percepção de sinergias e complementaridades entre elas. Por exemplo, imagine uma rua que concentre 20 restaurantes diversos em termos de cardápios, preços e propostas de valor entre eles, desde um popular com comida a kilo até um bistrô francês. Apesar da concorrência relativa entre eles, praticamente todos compram itens básicos como açúcar, sal, azeite, óleo de cozinha, laranja para o suco, leite, ovos… Por que eles não compram juntos? Essa é a questão chave de inteligência, a ser refletida, debatida e respondida! E esse raciocínio se aplica a muitos outros ramos de atividade e aglomerados produtivos do comércio, do agronegócio, da indústria e de serviços.

Em Santa Catarina ficou comprovado que as Centrais podem ser implantadas em atividades e setores além do varejo, como o de hospitalidade e hotelaria (www.redecostaesmeralda.com.br ) e com isso fortalecer a marca, aumentar as vendas, reduzir custos, aumentar a presença nas redes digitais e sociais e compartilhar serviços essenciais na hotelaria como por exemplo, a lavanderia. Esse caso ganhou um destaque especial no último Encontro Nacional das Centrais de Negócios. Os serviços também contam com experiências em provedores de internet e também na indústria frigorífica em Santa Catarina ( www.asaasc.com.br  ) são experiências que vale a pena conhecer.

AC: Há também a variação desse modelo. Antes encontrávamos o modelo central de negócios, hoje há centrais de compras e centrais de cooperação. Há outros modelos em desenvolvimento? O que essa variação traz ao mercado?  

Enio: A variedade é positiva porque demonstra que não há um modelo único ou melhor do que os outros, mas sim um ajuste dinâmico entre as demandas dos pequenos negócios e microempresas e as soluções e formatos jurídicos disponíveis no mercado. O foco é sempre em ganhos de competitividade, conquista e ampliação de mercados.

AC: Quais são os principais resultados desse modelo nos últimos anos. O Sebrae tem monitorado o amadurecimento das redes? Hoje quantas redes existem no país?

Enio: Em nosso mapeamento, de 2015, registrou-se 675 Redes e Centrais ativas no país. Com certeza esse número é maior, mas não conseguimos abranger no levantamento. Na média, 56% delas no setor de comércio, 19% em agronegócios, 14% em serviços e 11% na indústria e multisetorial.

AC: O quanto elas são responsáveis pelo aumento da competitividade das MPEs?

Enio: Uma mensuração mais objetiva e generalizada não é possível, até porque muitos dos resultados que as Centrais obtém são trabalhados apenas no âmbito interno. No entanto, um dado que mostra o acerto da estratégia é a diferença entre os dados macro e que vão sendo melhorados. Recentemente um empresário do varejo de material de construção do Rio Grande do Sul nos relatou a diferença: enquanto o setor no país caiu 15%, e no Estado 11%, as lojas integradas na Central que ele participa caiu 8%. Ou seja, não está fácil para nenhuma empresa de nenhum segmento, mas para quem está numa Central, os danos provocados pela crise são menores, menos “indigestos” digamos assim.

AC: Há um movimento de formação de redes nacionais, a partir de redes de negócios locais. Esse é o futuro para as centrais de negócios?

A Região Sul do país continua liderando esse movimento. Vimos no final de 2016 a formação da Central das Redes de Lojas do Rio Grande do Sul, integrando a Casabem, Toklar e Redlar. É o conceito de “Rede de redes” levado ao pé da letra! Mas não é fácil não, não é nada fácil esse processo. É preciso existir confiança entre os empresários, um capital social mínimo que sirva de “cimento entre os tijolos”. Temos visto que quando se fala em formação de centrais, a ideia raramente é refutada, mas aplicar e estruturar uma Central na prática, já é algo bem mais distante da realidade.

AC: Qual a expectativa do Sebrae para este modelo ao longo dos anos? Que projetos tem sido criados para a propagação das centrais de negócios?

Enio: Temos alguns bons desafios à frente: a regulamentação do artigo 56 da Lei Complementar 123/2006 é algo que já deveria ter sido feito há tempos, mas ainda é uma das principais e estruturais medidas do setor. Precisa-se de segurança jurídica na estruturação e operação de uma Central. Nesse ponto a SEMPE – Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa está retomando essa questão e o Sebrae dará o adequado apoio, juntamente com entidades representativas como a Fecomércio e outras. Também iremos proceder uma revisão e atualização de nossa metodologia de estruturação e formação de Centrais, de modo a torna-la mais flexível e modular para as demandas que temos tido do Sebrae nos Estados.